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Depoimento: A História da Minha Ansiedade

Olá, leitores do Conte a Vida! 

Em virtude do post publicado anteriormente sobre a ansiedade, recebi um texto-depoimento de autoria de Carla Alves que queria compartilhar com vocês. Fiquem atentos na leitura porque o texto é maravilhoso e podemos enxergar o quanto nossa ansiedade nos atinge de N formas.  


   Arrumando minhas coisas, encontrei esses dois papéis que marcam, não o início da minha ansiedade, mas o momento em que confrontei o fato de que ela existe. 
    Eu sei que ela é antiga, estava escondida em pequenos (ou não tão pequenos) detalhes, mas isso fica para outro momento. 
    A questão é que, em um belo dia de 2016, descobri que tinha ficado com a média 5,5 em uma matéria (média para passar direto = 7). Fazendo as contas de trabalho, prova integrada e Deus sabe mais o que, descobri que precisaria tirar 8,8 na segunda prova, para não precisar passar pela tão temida prova final (na qual caía a matéria toda, da qual poucos se salvavam e que já tinha criado tantos traumatizados).
    Era um fato para mim: eu ia fazer prova final e, provavelmente, reprovaria. 
    Logo eu, que sempre me esforcei tanto para ficar na média?
    Logo eu, que realmente tinha estudado para a primeira prova?
    Logo eu, que nunca me senti a vontade fazendo prova?
    Logo eu, que já tinha passado por provas finais das quais preferia esquecer?
    Logo eu, que me sentia incapaz de passar por isso?
    Logo eu, cujos parentes chegavam a brincar com o fato de que estudava demais?
    Logo eu, cuja família sempre depositou tantas expectativas?
    Logo eu, cujos pais se dedicam tanto?
    Logo eu, cujos amigos sempre tiveram a imagem de pessoa estudiosa?
    Sim. Logo eu.
    A partir daí a tempestade começou. 
    Meus dias se resumiam a ir às aulas, ir ao estágio e estudar. 
   Meus finais de semana eram dias de acordar mais cedo, estudar, tomar café da manhã, estudar, almoçar, estudar, lanchar, estudar, jantar e tentar estudar um pouco mais antes de deitar. 
   A cabeça às vezes pesava e informações que eu já tinha entendido se confundiam, fazendo meu desespero aumentar. 
   De noite o sono não vinha, meu cérebro revisando tudo o que eu precisava me dedicar mais e criando os piores cenários possíveis, ao mesmo tempo em que eu contava quantas horas de sono eu teria antes de acordar para voltar a estudar. 
  Um dia fiz minha melhor amiga chorar. Eu estava estressada-irritada, ela estava estressada-sensível e até hoje me sinto mal por isso. 
   Outro dia, outra amiga percebeu que eu estava comendo pouco e bem mal, mas às vezes o horário de comer passava batido no meio dos estudos e na hora que eu parava não tinha vontade. Emagreci alguns quilos nessa época. Alguns elogiavam, eu engordaria o dobro para deixar de sentir aquela agonia constante. 
   Um dia eu assisti um filme infantil antes de dormir, para ver se ajudava o sono a chegar. Passei os 20 minutos seguintes chorando e me odiando porque aquele tempo poderia ter sido usado com estudo ou com meu sono, que eram minhas duas necessidades básicas do momento. 
   Outro dia alguém da turma comentou com uma das professoras o desespero geral. Ela respondeu que a prova era a forma que ela tinha de segurar quem ela julgava não merecer passar. 
   Houve uma vez em que pediram para ela repetir a explicação. Ela disse que podia repetir, mas que a turma ia errar no dia da prova, porque não tínhamos capacidade para responder às questões dela. 
  Um dia comentei que estava dormindo muito pouco. Outra professora disse que ela meditava por 40 minutos, toda noite, o que equivalia a 4 horas de sono. Ela não entendia para que quereríamos mais que isso. 
   Um belo dia larguei o estágio. Aquele que eu gostava tanto, no qual eu aprendia tanto... Mas eu precisava de mais tempo para estudar. 
   No dia das mães acordei mais cedo. Já que ia gastar tempo saindo para almoçar com meus pais, eu precisava compensar de alguma forma o tempo de estudo. Chorei de novo naquela noite, porque ao final do dia eu queria ter aproveitado mais o momento com minha mãe. Na minha preocupação com o tempo e com a matéria, eu havia roubado dela, por tão pouco, um dia que deveria ter sido muito feliz. 
   Minhas preces matutinas se resumiam a uma frase e minhas preces noturnas se perdiam no choro e nas imagens ruins que minha mente criava. 
   Além da taquicardia frequente, a sensação de morte eminente que às vezes surgia do nada, a falta de apetite constante, o peso nas costas que parecia tão real e os pensamentos ultra acelerados, comecei a lidar com enjôo o tempo todo. 
   Era assim que eu estava quando comecei a terapia. 
   Mais do que me mostrar que eu seria capaz de sair do fundo do poço, na terapia aprendi a deixa-lo arrumadinho e confortável para mim. 
   Aprendi a aceitar a lidar com minha ansiedade. 
   Aprendi a refletir melhor sobre as minhas inseguranças e a desmistificar os meus medos. 
  Aprendi também a conviver com isso. O que foi ótimo, pois apesar dos sintomas diários terem praticamente sumido, a ansiedade continua sendo minha companheira mais fiel e mais presente. 
   Vida que segue. 
   É engraçado que hoje olho para trás e me sinto meio besta. Como eu pude permitir que uma nota baixa desencadeasse tanta coisa ruim?
   Quer dizer, o que de pior podia acontecer? Fazer uma prova final? Perder uma matéria? Atrasar um semestre?
   Opções ruins sim, mas meu sonho de me formar sempre foi maior que tudo isso. 
   Eu poderia tentar de novo na prova final. 
   Eu poderia tentar de novo semestre que vem. 
   No final das contas, consegui a nota necessária. 
   Engraçado que a sensação de alívio superou a sensação de alegria. Deveria mesmo ser assim?
   Talvez isso é o que torna a ansiedade tão ruim. 
   Ela consegue transformar uma pedra no caminho em uma montanha enorme e nos faz pensar que jamais seremos capazes de avançar através disso. 
    Acontece que somos. 
    Somos maiores do que as pedras. 
    Somos mais fortes do que as montanhas. 
    Somos mais inteligentes do que os monstros que criamos. 
    Somos melhores que tudo isso. 
    Basta aceitarmos ajuda. 
    Basta lembrarmos disso. 
    Basta tentarmos mais uma vez.

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